7.11.11

Memória plugada


Durante a produção desta matéria, os sites de busca da internet foram acionados incontáveis vezes. Assim, foram encontrados contatos telefônicos, dados de pesquisas, e, ocasionalmente, o termo exato para completar frases. Em outros tempos, tudo isso teria ficado a cargo da memória (minha e dos outros) e de pilhas de enciclopédias, agendas e dicionários. Acostumados com as facilidades da tecnologia, o homem contemporâneo tem se esforçado menos para guardar nomes, números e demais informações de uso prático. Segundo os especialistas, um fato que impressiona, mas não preocupa. As transformações não seriam sinal de subutilização do cérebro, mas de adaptação às necessidades de uma nova época, que exige menos memorização e maior agilidade de pensamento.

Uma pesquisa da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, divulgada em setembro, constatou que o uso contínuo da internet e dos mecanismos de busca vem, de fato, afetando a memória humana. Em um dos testes, os participantes tiveram que digitar uma lista com 40 fatos. Metade deles ouviu que esses dados seriam salvos, enquanto o restante foi avisado de que seriam apagados. Como os pesquisadores esperavam, esse segundo grupo foi capaz de lembrar um número bem superior de informações que o primeiro. Em outra etapa do experimento, os participantes se mostraram capazes de dizer em quais pastas estavam arquivadas as informações, embora não se recordassem do conteúdo dessas páginas propriamente.

A conclusão dos pesquisadores foi de que o computador está se tornando nosso principal sistema de armazenamento de informações. Apelidado de "Efeito Google", o fenômeno pode ser comparado à situação de uma pessoa que precisa, eventualmente, de utilizar um equipamento, mas não se preocupa em memorizar o manual de instruções, pois conta com um especialista sempre à disposição para consultar em caso de dúvidas.

Professor do mestrado em comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Erick Felinto equipara a transformação a outros momentos da história que vivenciaram a introdução de novas tecnologias. O filósofo Sócrates, por exemplo, se recusava a escrever suas reflexões, pois considerava que a fixação da palavra no papel amarraria o conhecimento em sua forma inacabada e não permitiria a evolução desse pensamento. "O homem sempre foi um ser tecnológico, o que está havendo é uma reconfiguração. Em tempos de carência de papel, havia a 'arte da memória', e algumas pessoas sabiam recitar a 'Ilíada' inteira", comenta.

"O livro e a gravação de som não passam de outras tecnologias de registro", reforça o professor, destacando que a introdução do cinema também trouxe modificações na maneira de enxergar o mundo: acelerou o ritmo dos acontecimentos e criou um vínculo intenso entre imagem e informação. "O sentido de uma frase como 'minha vida passou como se fosse um filme' está muito incorporado à nossa linguagem, mas seria impensável para os primeiros espectadores de cinema", exemplifica.

A presidente da Associação Nacional de Psicologia do Desenvolvimento e professora da Universidade de Brasília (UnB), Maria Cláudia Oliveira, reforça essa concepção histórica e cultural da aquisição de conhecimento. "Há estudos mostrando que a distribuição do livro em páginas organiza ciclos em nosso pensamento. A introdução de uma nova maneira de ler reflete-se em uma mudança nessa organização."

Fonte: Tribuna de Minas

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