3.4.11

População 'invisível' supera 1,5 milhão em Juiz de Fora

Apesar de os números do Censo não revelarem, Juiz de Fora teve uma explosão da população que circula pelas ruas e pelas áreas públicas nos últimos anos. Este crescimento, ainda não apontado nas estatísticas oficiais, é sentido diariamente no trânsito, nos setores públicos de saúde, nos consultórios, nas clínicas particulares, nos serviços de táxi, no comércio e na educação. Além dos 517 mil habitantes, Juiz de Fora é polo para moradores de municípios da região. A estimativa hoje é de que essa população flutuante gire em torno de 50 mil a 55 mil pessoas por dia. Isso representa cerca de 1,5 milhão a mais circulando pela cidade por mês.

Dentro da Programação Pactuada Integrada (PPI) da Saúde, 162 municípios da micro e macrorregião dependem de Juiz de Fora para procedimentos, desde os mais simples, de diagnose, até exames de média e alta complexidade, internações e atendimentos de urgência
e emergência. Um único município, como Rio Novo, destina até 60 pacientes por dia para a cidade, já que não há maiores recursos no local.

O resultado, tanto para a população da cidade como para os que aqui chegam, é a demora
para conseguir assistência. A cozinheira Maria Imaculada Conceição, 51 anos, teve que esperar mais de quatro meses para realizar uma cirurgia ortopédica. "Fiquei esse tempo todo na fila aguardando." O problema se repete na saúde privada, com um número crescente de pacientes dos planos de saúde. Como a quantidade de clínicas e de especialistas na região é restrita, os habitantes recorrem à cidade polo com frequência. "Tenho uma consulta com um oftalmologista, mas só consegui marcar para daqui a dois meses", conta a aposentada Ionice Ferreira, 62.

O mesmo se dá na educação, onde os números confirmam a demanda da região. Somente na UFJF, mais de 25% dos 18.478 alunos, ou seja, 4.762 estudantes, são de outras localidades. Nas faculdades privadas, os não residentes superam 20% do total de matriculados. Em alguns cursos particulares, como medicina, o percentual de alunos vindos de outras localidades chega a 85%. Até no ensino médio, a presença de estudantes de fora é elevada.

Ônibus e vans chegam diariamente, trazendo aqueles que buscam ensino de melhor qualidade. Kelvin Vianello, 18, de Coronel Pacheco, ainda não chegou no ensino superior, mas já adotou a rotina de viagens diárias a Juiz de Fora para se preparar melhor para o vestibular. "Quero fazer engenharia de produção, e lá não tem cursinho. Se ficasse só lá, teria que estudar sozinho, e minhas chances seriam menores." Josélia Caetano, 19, sai de Piau para cursar segurança do trabalho no Pio XII e relata a rotina cansativa. "Além do cansaço, há o risco. É exatamente uma hora de ida e outra de volta, em uma estrada cheia de curvas."

Busca também por comércio e emprego
O número de 1,5 milhão mensal de pessoas em circulação em Juiz de Fora considera os
dados do último Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, divulgados em 2000, que foram projetados para a atualidade. "Na época, estimou-se uma população flutuante de 31 mil pessoas/dia, o que representava cerca de 7,3% a 7,5% dos habitantes, que chegavam a 427 mil. Hoje trabalhamos com um valor estimado de 10% a 12% da população total - o que fica em torno de 50 mil a 55 mil pessoas/dia - , um índice que retrata a importância de Juiz de Fora para a região pela atratividade tanto no comércio, no setor de serviços, quanto no segmento educacional e na saúde", destaca o subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Carlos Eduardo Meurer.

O município é referência para a região não só nos serviços públicos, mas no comércio e nas oportunidades de trabalho. "Ainda precisamos destacar o crescimento econômico e qualitativo
do país. Ou seja, a migração das pessoas das classes mais baixas para a classe média, o que também interfere consideravelmente na mobilidade", lembra o consultor em mobilidade urbana José Ricardo Daibert.

Esse movimento de imigração é crescente. Em 2000, dos 456.795 habitantes, 36% (167.351) não eram naturais de Juiz de Fora, entretanto, residiam na cidade por algum motivo, conforme dados do IBGE. Ainda conforme o órgão, o saldo migratório (diferença entre imigrações e emigrações) na microrregião de Juiz de Fora entre 1995 e 2000 foi de 14.085 pessoas, volume 66% maior que o registrado no período anterior, que foi de 8.455, entre 1986 e 1991. Ainda segundo o IBGE, este estrato do Censo de 2010 ainda está sendo analisado e só será divulgado entre esse ano e o próximo.

Professor do Departamento de Geociências, Demografia e Geografia da UFJF e coordenador do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais, Luiz Fernando Soares de Castro, explica a posição do município neste contexto. "Deve-se ressaltar o fato de que muitas cidades, em particular da microrregião de Juiz de Fora, registram saldo migratório negativo - destacando a mão-de-obra nelas não absorvida. Juiz de Fora tem uma participação da migração bastante considerável no seu crescimento demográfico. Ou seja, recebe um número considerável de pessoas destas cidades."

Planejamento
A Tribuna ouviu especialistas sobre os diversos assuntos, e há senso comum: falta planejamento para a cidade. Para o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFJF, José Gustavo Francis Abdalla, os problemas, sobretudo urbanos, são reflexo da dobradinha crescimento-ausência de planejamento. "Para Juiz de Fora, falta planejamento. A cidade está atrasada, demandando um novo plano diretor. O anterior é obsoleto, está ultrapassado em relação à nova realidade, ao novo cenário."

'Não há mais espaço para individualismo'
O resultado deste crescimento reflete-se nas retenções diárias no trânsito. Hoje, por exemplo, o deslocamento de carro de casa para o trabalho é mais demorado do que há alguns anos. Os pedestres também sofrem, disputando espaço nas calçadas, nas filas em pontos de táxis e nos ônibus superlotados. Muitos se arriscam para fugir das aglomerações. "Juiz de Fora cresceu muito, e falta espaço para transitar nas calçadas. Acabamos andando na rua", comentou a depiladora Luiza Munck, 44 anos.

Segundo a Settra, atualmente há um carro para cada três pessoas na cidade, o que representa uma frota de 180.125 veículos. Um índice surpreendente, já que o município perde apenas para São Paulo, onde o índice é de dois habitantes por carro. "O trânsito de Juiz de Fora está chegando a uma situação crítica. Se não houver vontade política, não terá alternativa. A cidade está parando, só nos resta saber quando vai parar de fato", enfatiza o consultor em mobilidade urbana José Ricardo Daibert. Já o leitor Leo Bonfim dá uma dica para que o tráfego possa fluir melhor. "Os motoristas devem lembrar que a cidade está crescendo e, por isso, não há mais espaço para individualismo".

Subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer explica o que acontece hoje. "A cidade parou no tempo. Não evoluiu em termos de infraestrutura. O que aconteceu no município nos últimos anos depois da criação da Rio Branco e da construção do Viaduto Augusto Franco? Pulamos de uma frota de 107.318 veículos, em 1996, para 180.251, um crescimento de 80%, e ainda com o mesmo sistema viário. Apesar deste crescimento, não tivemos ações de engenharia de tráfego, visando a otimizar o uso da capacidade viária. Agora estamos com um conjunto de obras viárias preparadas para execução. A prioridade também será dada ao deslocamento dos pedestres e à acessibilidade nos projetos urbanísticos, inserindo características que proporcionam maior conforto e segurança. Não podemos nos afastar de melhorar a mobilidade urbana, com uso do transporte não motorizado. Um trânsito equilibrado permite uma boa qualidade de vida para os juiz-foranos, já que o tráfego é a atividade meio para as demais, como saúde, comércio, serviços e lazer."

Para Daibert, a solução passa pela mudança do sistema de transporte urbano atual por um de qualidade, além da restrição de circulação de carros e motos particulares. "Precisamos abrir mais espaço para os ônibus. Hoje a frota aproximada de veículos na cidade é de 160 mil, contra apenas 550 ônibus. Nas vias, 95% dos espaços são ocupados pelos automóveis e 5% são dos ônibus. É hora de trocar essas áreas de espaço para por fim nos congestionamentos."

Demora e sobrecarga na assistência
Na saúde, esse crescimento reflete, muitas vezes, em filas de espera para os pacientes e em gastos extras para o município. No SUS, Juiz de Fora é polo da micro-tripolar, correspondente a Juiz de Fora, Lima Duarte e Bom Jardim, o que representa 641 mil habitantes, e também da macro-sudeste, que são mais de 1,5 milhão de habitantes. Além da sobrecarga, há o ônus financeiro. Muitos procedimentos oferecidos aos pacientes de outras cidades são repostos financeiramente pela Programação Pactuada Integrada (PPI), porém, outros não entram nas contas. Ou seja, o município gasta, mas não recebe o retorno do dinheiro.

"Por exemplo, o valor previsto para cirurgia cardíaca pactuada é de R$ 5 mil, mas, muitas
vezes, a intervenção sai mais cara. Se fica em R$ 20 mil, não podemos cobrar o que faltou do município pactuado. Essa pactuação é prevista pelos parâmetros do Estado, que são pequenos em comparação com a demanda. Em alguns casos, conseguimos recuperar com o Governo o gasto de alguns exames de média complexidade e de internações, mas não conseguimos retorno de procedimentos ambulatoriais de média complexidade. Ainda há urgência e emergência. Por conta da aproximação, recebemos muitas pessoas da Zona da Mata e de municípios do estado do Rio. Ou seja, apesar de a população flutuante não ser contabilizada nos dados do IBGE, ela cai, de um jeito ou de outro, aqui", destacou a chefe do Departamento de Cadastro, Contratos, Convênios e Programa Assistencial da Subsecretaria de Regulação, Sandra Paiva. O secretário de Saúde, Cláudio Reiff, reconhece o papel da cidade. "Juiz de Fora é polo da região, e é nosso dever atender os pacientes de fora. O que criticamos são os que vêm sem regulação."

A Tribuna acompanhou o movimento de vans com pacientes de outras cidades no PAM-Marechal. Em um único dia, havia carros de Andrelândia, Cataguases, Pequeri, Maripá, Liberdade e até de Três Rios (RJ). Em uma segunda ida ao local, havia veículos de Bicas, Santana do Deserto, Rio Novo, Carandaí, Cataguases, Rochedo de Minas e Mar de Espanha.

Nos hospitais, atendimento crescente
Só em 2010, das 47.580 cirurgias de média complexidade realizadas pelo SUS na cidade, quase 25% (11.642) foram de pacientes não residentes em Juiz de Fora. Na alta complexidade, dos 3.737 procedimentos cirúrgicos, 1.677 foram destinados a pacientes de fora e os outros 2.060 aos juiz-foranos.

Nos hospitais, o atendimento a pacientes da região é significativo. Na Santa Casa, em 2010, foram atendidos 93.242 pacientes na emergência, entre particulares, convênios e SUS. Destes, 87.386 moradores de Juiz de Fora e 5.856 oriundos de outras cidades de Minas, Rio e outros estados. Na internação, foram 20.278 atendimentos, sendo 4.249 destinados a pacientes com residência em outras localidades.

Rede particular
O reflexo dessa demanda é sentido ainda nos planos de saúde. Balanço da Unimed mostra que, em 2010, mais de 160 mil clientes de outras cidades recorreram a médicos, hospitais e centros de diagnóstico e terapia em Juiz de Fora, provocando um volume de mais de 169 mil consultas e 5.663 internações. Esses pacientes vieram de 11 cidades da Zona da Mata e de municípios da região Norte Fluminense, e, sozinhos, movimentaram, no ano passado, mais de R$ 60 milhões.


Fonte: Tribuna de Minas

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