6.9.10

Evasão escolar no ensino médio chega a até 50%

Quem assiste aos programas eleitorais destinados às propostas para a educação pode pensar que a solução para problemas do ensino público no país passa exclusivamente pela matemática, tantos são os números mostrados por candidatos majoritários, seja em nível federal ou estadual. Nas contas, entram as quantidades de escolas construídas, de vagas abertas, de instituições com acesso à internet, além dos índices que mostram o desempenho de cada escola, município ou estado nas avaliações que tentam medir a qualidade da educação pública no Brasil. Fora do horário eleitoral gratuito, porém, outros números, ocultos por presidenciáveis e concorrentes ao Governo - a não ser quando usados para atacar o adversário -, revelam que, a despeito das propagandas, o ensino básico permanece com sérios abismos. Dados levantados pela Fundação João Pinheiro até a última eleição presidencial e estadual, dentro das áreas de responsabilidade do Poder Público que compõem o Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS), mostram que a taxa líquida de frequência escolar no ensino médio - equivalente à razão entre o número de adolescentes entre 15 e 17 anos existentes em cada município e o número de matriculados - corresponde, na Zona da Mata mineira, a 38,1%. Em Juiz de Fora, a situação melhora, subindo para 49%, mas ainda permanece grave. Afinal, pela matemática clara, mais da metade dos jovens juizforanos em idade para frequentar o ensino médio está fora da escola.

A evasão escolar - que ficou explícita em Juiz de Fora nas últimas semanas com os sucessivos protestos de estudantes contra a junção de turmas no Instituto Estadual de Educação e na Escola Estadual Maria Elba Braga, no Bairro Cerâmica, Zona Norte, - é evidente se os percentuais forem comparados à taxa de frequência dos estudantes de 7 a 14 anos ao ensino fundamental, quando os pais e responsáveis são obrigados por lei a mantê-los nos bancos escolares. Nessa idade, o percentual de alunos da Zona da Mata matriculados há quatro anos era de 91,32%, enquanto, em Juiz de Fora, o índice chegava a 93,4%. A professora Lúcia Barone, diretora da Escola Estadual Professor Cândido Motta Filho, no Bairro São Benedito, Zona Leste da cidade, presencia o problema anualmente e atribui o afastamento dos estudantes à falta de perspectiva que o modelo de ensino hoje lhes oferece. “O fato é que o ensino médio não é profissionalizante. As pessoas podem até dizer, vendo as campanhas: ‘Ah, mas o Estado oferece...’. Oferece sim: com poucas vagas e longe da comunidade. E os que estão no ensino profissionalizante conseguem isso porque felizmente os pais podem mantê-los lá”, critica. “A questão social é determinante. Pense num aluno que trabalha o dia inteiro, de oito da manhã às seis da tarde, longe de casa, tendo que enfrentar ônibus lotado para ir e voltar. Por que esse aluno vai para a escola à noite? Para fazer um ensino médio que não dá futuro a ele?”

Para o sociólogo e consultor de políticas públicas Rudá Ricci, a falta de perspectiva não é só de futuro, mas também de presente. “O número de matrículas vem caindo em todos os níveis, mas principalmente no ensino médio”, confirma, ponderando que a situação da Zona da Mata ainda é melhor do que a encontrada no Centro-Norte do estado. “A avaliação do Ideb é pior no ensino médio; é o pior segmento da educação básica. Mas, ao contrário do que pensávamos, o principal fator de evasão não é o trabalho, é a desmotivação. E a resposta que ouvimos dos alunos é: ‘A escola é muito chata’.”

‘Muita pirotecnia e pouca realidade’
O argumento aparentemente simples dos jovens é o mesmo enfatizado pela professora de história Eliane de Souza Ferreira, que, embora não lecione na rede estadual, tem contato sistemático com alunos do estado, envolvida na coordenação do projeto da Câmara Mirim. “O primeiro grande pecado do Poder Público em relação à educação é a questão da universalização sem qualidade. Os governos só enxergam índices estatísticos, que não levam em conta a regionalização, a realidade de cada escola, de cada comunidade. Ainda não há formação de cidadania, as aulas se resumem à leitura de livro didático. Não acontece reflexão”, analisa. Rudá Ricci concorda. “O ensino se baseia unicamente na memorização; não fala dos problemas dos adolescentes, como mercado de trabalho ou sexualidade. O adolescente é gregário por natureza, e a escola desconhece essas tribos às quais eles pertencem”, considera.

Uma das alternativas defendidas por ele é a implantação de um currículo modular, no qual os alunos tivessem as matérias obrigatórias básicas, outras também obrigatórias, mas com a possibilidade de o aluno “puxá-las” na ordem desejada, como na universidade, e mais algumas optativas, incluindo dança, teatro, língua estrangeira ou algum esporte. A solução, contudo, esbarra na vontade - ou falta de - do Poder Público, que tende a desprezar medidas de longo prazo e priorizar aquelas que se revertam mais rapidamente em resultados eleitorais.

“O problema é que o Brasil abdicou de pensar uma educação voltada para o aluno e passou a perseguir números do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O resultado médio de uma política educacional efetiva é de dez anos, mas os gestores vão atrás de estatísticas, porque há eleição de dois em dois anos e precisam ter algo para mostrar. Minas Gerais já teve a melhor educação do Brasil - basta lembrar que o primeiro ministro da Educação era de Dores do Indaiá (Francisco Campos, na primeira administração de Getúlio Vargas). Mas estamos caindo porque, em vez de dar espaço para a criatividade dos professores e para a curiosidade dos alunos, os governos passaram a perseguir números,” denuncia. A professora Eliane tem a mesma opinião. “A impressão que me passa é que o Estado quer dar satisfação de que está fazendo alguma coisa. Mas a inclusão digital, por exemplo, é uma farsa. Como, se numa escola com mil alunos, às vezes tem nove computadores? Isso é inclusão? Só serve para fazer dado estatístico. É muita pirotecnia e pouca realidade.”

Ideb evidencia dispersão de notas
A obsessão por dados estatísticos para avaliar avanços e retrocessos do ensino público acaba evidenciando distorções onde deveria haver uma política pública integrada em prol da educação. A escola Cândido Motta Filho, dirigida pela professora Lúcia Barone, por exemplo, atingiu nota 4,4 no Ideb na avaliação do quinto ano (antiga quarta série) e 1,9 na avaliação do nono ano (antiga oitava série). Para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apenas oito alunos se inscreveram, e a instituição está sem conceito no balanço divulgado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Já outra escola estadual, a Maria de Magalhães Pinto, no Bairro Santa Luzia, na Zona Sul de Juiz de Fora, alcançou nota 7 na primeira etapa do ensino fundamental e 4,3 na segunda. A instituição também foi a segunda melhor colocada entre as estaduais da cidade no Enem, perdendo apenas para o Colégio Tiradentes da Polícia Militar.

Contrastes profundos
Diante apenas da disparidade matemática, não é possível enxergar os contrastes mais profundos entre as escolas. A professora Maria das Graças Valério, diretora do colégio de Santa Luzia, afirma que há pouca evasão no estabelecimento e que, pelo contrário, precisa de mais salas para dar conta da fila de espera de estudantes. “Esse resultado (no Enem e no Ideb) é fruto de muito trabalho, muitos projetos, de um professorado muito bom e envolvido com a escola”, ressalta Graça.

Falta política pública integrada
A diretora Maria das Graças Valério também destaca que, de certa forma, “a política educacional melhorou muito”. “Tenho mais de 30 anos de magistério e 12 na direção. Não gosto de política, mas nunca me faltou verba. É claro que o gerenciamento é importante; a direção influi muito.” A escola, porém, não conta só com o dinheiro do Estado. Segundo Graça, a quadra de esporte foi construída com recursos angariados em festas ou rifas. Além disso, o colégio ainda mantém quatro projetos em parceria com instituições privadas, que acabam preencheendo lacunas do Poder Público.

De outro lado, a escola de São Benedito sofre problemas externos, frutos muitas vezes da carência da comunidade. Um caso é o da professora de português Maria Antônia Ribeiro Franklim, que já ouviu de um aluno: “Não respeito nem minha mãe, por que é que vou te respeitar?”. Conforme Lúcia Barone, cerca de 10% dos problemas da escola são gerados dentro da própria escola. “Os outros 90% nascem do outro lado do muro: falta de emprego, fome, violência. Os discursos que esses jovens aprendem em casa reproduzem aqui”, aponta. “Não adianta ficar falando em problema da educação sem resolver problemas sociais. A escola hoje é responsável por tanta coisa que não dá conta do pedagógico.”

Para Rudá, essa dispersão existente nas notas do Ideb numa mesma localidade ou região demonstra que não há uma política pública integrada. “Isso significa que as escolas que vão bem conseguem isso quase por um esforço individual da direção e dos professores, e não porque haja uma política educacional unificada. Em vez de ajudar, o Ideb está fazendo com que as escolas disputem entre si, destruindo uma política global. É o fim da proposta republicana.”

Fonte: Tribuna de Minas

Um comentário:

Raissa disse...

Esse artigo é a prova de que podemos salvar alguma coisa dos jornais.

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