5.4.10

ENTREVISTA/Bernard Charlot, professor emérito da Universidade de Paris

‘Escola virou lugar de sofrimento’

Doutor em Educação pela Universidade de Paris, onde é professor emérito, o pesquisador francês Bernard Charlot, 65 anos, conhece como poucos a realidade da educação no Brasil. Professor visitante da Universidade Federal de Sergipe, ele admite que sua cabeça e seu coração são brasileiros e tenta, com os seus estudos, provocar uma reflexão sobre o ensino, sobre as políticas educativas, a escola e a relação com o saber. Nesta entrevista concedida a Tribuna, o palestrante convidado para a sessão comemorativa dos 15 anos do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFJF discute a crise que afeta a escola pública e lembra que, em meio ao desmonte das instituições públicas, ela é a única que ainda resiste.

- Tribuna -A escola pública está em crise?
- Bernard Charlot - A escola pública brasileira foi abandonada. Está em crise. Era muito boa há 20, 30 anos. A política pública foi de deixar por fora a escola pública, enquanto escolas e universidades particulares se desenvolviam. Mas a escola pública, de certa forma, é muito boa, porque ela consegue com poucos recursos fazer muitas coisas. Se tivesse mais recursos, seria ainda melhor. É claro que tem uma desigualdade social entre a escola pública e a escola privada. Mas deve-se resistir.

- O senhor acha que o fracasso escolar é consequência do abandono da escola pública?
- A própria noção de fracasso escolar não é clara. Fracasso escolar pode ser o fato de um aluno não passar de ano. Mas, muitas vezes, é o fato de o aluno não saber nada e passar de ano. Deveria-se falar também do fracasso escolar dos bons alunos que passam, que tiram boas notas, mas não têm uma formação que permita refletir sobre a vida e sobre o mundo. A questão fundamental é que, nas escolas particulares, se trabalha para ser aprovado no vestibular. Na escola pública, tenta-se trabalhar mais o sentido da vida, mas tem o problema de formação dos professores, de recursos. Não há uma solução simples.

- Como um pesquisador da área, quais os meios para combater o fracasso escolar?
- Vou responder de outra forma. O que é preciso para tentar fazer com que os alunos aprendam? A equação pedagógica é: sucesso igual atividade, sentido e prazer. O aluno não aprende se ele não tem atividade intelectual. Ele não tem atividade intelectual se a situação não faz sentido para aprender. Uma vez um adolescente francês me disse: ‘na escola, gosto de tudo fora os professores e as aulas’. Claro que ele não vai aprender. O que devemos tentar construir é uma escola com atividade intelectual do aluno, com sentido e com prazer.

- A falta de prazer do aluno se reflete na falta de interesse em ir à escola?
- Claro. Não apenas a falta de prazer dos alunos, mas também falta de prazer dos professores, dos pais. A nossa escola se tornou um lugar de sofrimento. Como é possível que a química, a biologia, a matemática e a gramática sejam interessantes? O que tento falar aos professores é que parem de dizer que são úteis as coisas que ensinamos. Gramática não serve para nada, matemática depois do quinto ano não serve mais. Devemos ensinar porque é importante. Mas por que é importante? Se o professor não souber o porquê, o aluno não vai se interessar. Temos que parar de mentir para os alunos, dizendo que isso é útil. Uma grande parte do que ensinamos não é útil, é importante. Futebol não é útil, música não é útil, um monte de coisas dais quais eles gostam não são úteis. Temos que salientar o que é importante, o que vale a pena na vida.

- Como despertar nos alunos os valores sociais que estão perdidos?
- O professor deve trabalhar os valores, mas como? Não é fácil. Por exemplo, a questão da educação para a cidadania de que se fala muito. Geralmente, se fala de educação para a cidadania para as escolas públicas ensinarem cidadania aos pobres. É problema, porque a questão da cidadania vale para as escolas particulares. Onde estão os filhos dos corruptos, onde estão os filhos de quem rouba o dinheiro público? Não estão na escola pública, estão na escola particular. Educação para a cidadania, aos valores fundamentais, claro que é essencial. Mas cuidado. Não deve ser uma indicação para os pobres deixarem tranquila a classe média.

- Qual é o papel do professor na sociedade contemporânea e por que ele tem tanta dificuldade para lidar com a diversidade que se manifesta na escola?
- Escrevi um texto sobre isso, cujo título é ‘O professor na sociedade contemporânea. Um trabalhador da contradição’. Ele vive coisas completamente contraditórias. Por exemplo: se diz ao professor que ele deve usar a internet. Já vi, no interior, escolas onde os fios não permitem conectar o computador. Se diz que ele deve valorizar trabalho em grupo, coletivo. Só que depois ele tem que dar uma nota individual a cada aluno. O que significa? Não se pode ensinar dando uma nota individual com métodos coletivos. É uma contradição. A nossa sociedade pede ao professor coisas contraditórias.

- O senhor acha que para a escola atrair o interesse do aluno ela precisa se reinventar?
- Ela precisa reencontrar uma lógica do saber que não seja apenas uma lógica do passar de ano. Precisa reencontrar a aventura intelectual. Não temos aventura intelectual na escola. Os alunos reclamam. “Chegamos na segunda e já sabemos tudo o que vai acontecer até o final da semana”. É triste. Ela precisa reencontrar, liberar o prazer de aprender, mas também o prazer de ensinar. Acho que uma escola na qual os professores fossem mais felizes seria melhor para os alunos.

- Por que a violência explode no cenário escolar?
- Estamos vivendo numa sociedade violenta. Uma sociedade de cada um por si, de concorrência selvagem, do abandono dos mais fracos. A violência acontece em lugares onde há tensões. Tensões sociais ligadas à pobreza, tensões institucionais ligadas ao funcionamento da escola, tensões pedagógicas ligadas à vida cotidiana dentro da sala de aula. Não tem uma solução para o fracasso e para a violência porque são fenômenos diversos. Há um conjunto de soluções que temos que tentar utilizar, algumas são mais políticas, outras mais ligadas às práticas cotidianas dos professores e dos alunos.

- O senhor disse que os nossos símbolos ruíram. A escola também pode ser considerada uma instituição que está desmoronando?
- Não. Na França, e em muitos bairros populares onde pesquisei, a escola é a única instituição pública que ainda existe. A única instituição, no Brasil também, que existe em todos os bairros, por mais difícil que seja, é a escola pública, que resiste. Ao mesmo tempo em que é uma honra para essa instituição resistir em condições difíceis, é uma responsabilidade enorme para a escola. Porque nesses bairros onde a escola é a única instituição pública, ela simboliza o público, o político, o poder do estado, a república. É por isso que as escolas deveriam obter um apoio forte.

Fonte: Tribuna de Minas

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