3.9.09

Selvageria do capital

Com um intervalo de apenas três dias, o Brasil assistiu a dois episódios lamentáveis de violência e desrespeito aos direitos humanos e à cidadania de centenas de pessoas, especialmente mulheres e crianças.

O primeiro aconteceu na sexta-feira 21, em São Gabriel (RS), durante a desocupação da fazenda Southall, ocupada pelo MST. O outro caso ocorreu na segunda-feira 24, na capital paulista, com a reintegração de posse de um terreno na Zona Sul da cidade, onde, há mais de dois anos, 800 famílias haviam construído suas moradias numa ocupação batizada com o nome da comunista Olga Benário.

Nas duas desocupações, viu-se a truculência de forças policiais orientadas a fazer valer a lei do mais forte a qualquer custo. Em São Gabriel, o trabalhador rural Elton Brum da Silva, de 44 anos, foi assassinado, com um tiro nas costas, e 50 pessoas ficaram feridas.

Em São Paulo, os ocupantes desalojados não tiveram tempo sequer para tirar seus pertences dos barracos. Os que resistiram foram espancados, e a polícia lançou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo contra os moradores. Alguns barracos pegaram fogo e outros foram destruídos por tratores. Agora os moradores não têm para onde ir.

A truculência exacerbada da polícia nas duas desocupações é só um dos lados chocantes da história. O outro lado, que parece não incomodar a mídia nem as instituições, é o revoltante predomínio do suposto direito de propriedade em detrimento do direito legítimo à moradia. Nos dois casos, o princípio da função social da propriedade, estabelecido pela Constituição de 1988, foi solenemente ignorado.

A situação é reveladora também do quanto o judiciário brasileiro ainda está impregnado de uma noção patrimonialista. O fato de uma parte significativa das propriedades rurais e urbanas do país estar nas mãos de pessoas que têm algum vínculo com o sistema de poder talvez ajude a explicar as dificuldades de se avançar na mudança do status quo que há séculos determina a ocupação de terras no país.

É verdade que nos últimos anos, com o Governo Lula, o Brasil experimentou avanços significativos na área social, mas, enquanto não forem levadas a sério e a cabo duas importantes reformas, a reforma agrária e a reforma urbana, continuaremos assistindo a cenas lamentáveis de despejo como as que ocorreram nos últimos dias e que só fazem aumentar a sensação de injustiça e desigualdade que escancaram a selvageria do capital.

Autor: José Luís Guedes

Fonte: Tribuna de Minas

Um comentário:

Thiago disse...

"Olá colegas,
Deixo aqui a divulgação da Primeira Olimpíada Nacional em História do Brasil, iniciativa inédita no país, organizada pelo Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com o apoio do CNPq. A Olimpíada é para escolas públicas e particulares e acontece pela internet, com equipes formadas por estudantes do oitavo e nono anos do ensino fundamental e por estudantes do ensino médio, juntamente com seu professor. As inscrições já estão abertas!
www.mc.unicamp.br
Obrigado"

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