8.8.09

Ecopedagogia e sustentabilidade da Terra


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo(...) Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer. Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura (...). Fernando Pessoa

Os paradigmas clássicos, fundados numa visão industrialista predatória, antropocêntrica e desenvolvimentista estão se esgotando, não dando conta de explicar o momento presente e de responder às necessidades futuras.

Diante disso, necessita-se de uma pedagogia para conduzir de forma emergente as questões da sustentabilidade, de uma pedagogia que contemple as questões inerentes aos problemas ambientais de todo o nosso ecossistema.

Etimologicamente, a palavra pedagogia tem origem na Grécia antiga – paidós (criança) e Agogé (condução). Como pedagogo é o que conduz, é o que ampara, a terra precisa de pedagogos para ampará-la.

A pedagogia tradicional centrava-se na espiritualidade; a pedagogia da escola nova, na democracia; a tecnicista, na neutralidade científica. E ecopedagogia centra-se na relação entre os sujeitos que aprendem juntos “em comunhão”.

É somente uma pedagogia ética, uma ética universal do ser humano e não uma “ética de mercado” que fundamenta a merco-escola, segundo o grande educador Paulo Freire: Não podemos assumir como sujeito da procura, da decisão, da ruptura, da opção, como sujeitos históricos transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos (...) A eticidade conota expressivamente a natureza da prática educativa, enquanto prática formadora. (FREIRE, 1997, p. 9-16)

Assim, segundo Rios (1993), na visão da ecopedagogia, a ética faz parte essencial da competência (práxis) de um educador. A ecopedagogia não é uma pedagogia escolar, ela não se dirige apenas aos educadores, mas aos habitantes da terra em geral, como afirma Francisco Gutiérrez (1996, p.26), “estamos frente a duas lógicas que de modo algum devemos confundir: a lógica escolar e a educativa”.

Assim, a pedagogia necessita se reinventar, criar novos fazeres para mudanças de atitudes em relação à educação da sustentabilidade da terra.

Precisa-se:

- De um outro paradigma fundando numa visão sustentável do planeta terra;
- De uma “Pedagogia da Terra”, apropriada à cultura da sustentabilidade e de paz, fundamentada num paradigma filosófico emergente na educação que propõe um conjunto de saberes e valores interdependentes, como nos sugerem Edgar Morin, Boaventura Sousa Santos, Paulo Freire e outros, sendo:

1º) Educar para pensar globalmente. Na era da informação, diante da velocidade com que o conhecimento é produzido e envelhece, não adianta acumular informações. É preciso saber pensar, refletir a realidade. Não pensar pensamentos já pensados, em modelos retrógrados. Daí a necessidade de recolocarmos o tema do conhecimento, do saber aprender, do saber conhecer, das metodologias, da organização do trabalho na escola, de novos saberes, de novas práticas pedagógicas, de novos elementos que reestruturem um novo olhar para uma educação que preservará e salvará o que ainda existe.

2º) Educar os sentimentos. O ser humano é o único ser vivente que se pergunta sobre o sentido de sua vida. Educar para sentir e ter sentido, para cuidar e cuidar-se, para não ser indiferente e sim para ser solidário e sensível, para viver com sentido em cada instante da nossa vida. Somos humanos porque sentimos e não apenas porque pensamos. Somos parte de um todo em construção. Não se pode conceber uma educação do indiferentismo em relação à terra.

3º) Ensinar a identidade terrena como condição humana essencial. Educar para conquistar um vínculo amoroso com a Terra, não para explorá-la, mas para amá-la, sensibilizar-se de que a terra é nossa morada e por isso temos que cuidar e protegê-la.

4º) Formar para a consciência planetária. Compreender que somos interdependentes. A Terra é uma só nação e nós, os terráqueos, os seus cidadãos. Separar primeiro de terceiro mundo significa dividir o mundo para governá-lo a partir dos mais poderosos; essa é a divisão globalista entre globalizadores e globalizados, o contrário do processo de planetarização. Formar uma consciência de que não somos seres fragmentados e sim, um único planeta.

5º) Formar para a compreensão. Formar para a ética do gênero humano, não para a ética instrumental e utilitária do mercado. Educar para comunicar-se. A Pedagogia da Terra funda-se nesse novo paradigma ético e numa nova inteligência do mundo. Inteligente não é aquele que sabe resolver problemas (inteligência instrumental), mas aquele que tem um projeto de vida solidário. Porque a solidariedade não é hoje apenas um valor, é condição de sobrevivência de todos.

6º) Educar para a simplicidade e para a quietude. Nossas vidas precisam ser guiadas por novos valores: simplicidade, austeridade, quietude, paz, saber escutar, saber viver juntos, compartir, descobrir e fazer juntos. A simplicidade não se confunde com a simploriedade e a quietude não se confunde com a cultura do silêncio. A simplicidade tem que ser voluntária, como a mudança de nossos hábitos de consumo, reduzindo nossas demandas. A quietude é uma virtude, conquistada com a paz interior e não pelo silêncio imposto. Diante do grande problema ecológico do planeta, surgem alternativas numa cultura da paz e numa cultura da sustentabilidade.

Sustentabilidade não tem a ver apenas com a biologia, a economia e a ecologia. Sustentabilidade tem a ver com a relação que mantemos conosco, com os outros e com a natureza. A pedagogia deveria começar por ensinar, sobretudo, a ler o mundo.

Não entendemos o universo como partes ou entidades separadas, mas como um todo sagrado, misterioso, que nos desafia a cada momento de nossas vidas, em evolução, em expansão, em interação. Razão, emoção e intuição são partes desse processo em que o próprio observador está implicado. O universo não está lá fora. Está dentro de nós. Está muito próximo de nós.

Um pequeno jardim, uma horta, um pedaço de terra são microcosmos de todo o mundo natural. Nele encontramos formas de vida, recursos de vida, processos de vida. A partir dele, podemos reconceitualizar nosso currículo escolar. Ao construirmos e cultivarmos o universo como um ambiente sustentável aprendemos mais. As crianças o encaram como fonte de tantos mistérios.

Devem-se recuperar valores da emocionalidade com a Terra: a vida, a morte, a sobrevivência, os valores da paciência, da perseverança, da criatividade, da adaptação, da transformação, da renovação, entre outros.

Estamos diante do crescimento incessante e paralelo entre a miséria e a tecnologia: somos uma espécie de sucesso no campo tecnológico, mas muito mal sucedida no governo do humano. Os problemas atuais, inclusive os problemas ecológicos, são provocados pela nossa maneira de viver, sendo que a nossa maneira de viver é inculcada pela escola, pelo o que ela seleciona ou não seleciona, pelos valores que transmite, pelos currículos, pelos livros didáticos.

Precisamos reorientar a educação a partir do princípio da sustentabilidade, isto é, retomar nossa educação em sua totalidade. Isso implica uma revisão de currículos e programas, sistemas educacionais, do papel da escola e dos professores e da organização do trabalho escolar. A ecopedagogia, tal como vem sendo desenvolvida, por exemplo, pelo Instituto Paulo Freire, implica uma reorientação dos currículos para que incorporem certos princípios, tais como:

1º - considerar o planeta como uma única comunidade;

2º - considerar a Terra como mãe, como um organismo vivo e em evolução;

3º - construir uma nova consciência que sabe o que é sustentável, apropriado, e faz sentido para a nossa existência;

4º - ser terno para com essa casa, a Terra, nosso único endereço;

5º - desenvolver o senso de justiça sócio-cósmica, considerando a Terra como um grande pobre, o maior de todos os pobres;

6º - promover a vida: envolver-se, comunicar-se, compartilhar, problematizar, relacionar-se, entusiasmar-se;

7º - caminhar cotidianamente com sentido;

8º - desenvolver uma racionalidade intuitiva e comunicativa, afetiva, não instrumental.

As pedagogias clássicas eram antropocêntricas. A ecopedagogia parte de uma consciência planetária (gêneros, espécies, reinos, educação formal, informal e não-formal). De uma visão antropocêntrica para uma consciência planetária e para uma nova referência ética, mais holística.

Cabe a educação encarar as inúmeras representações e apresentar elementos que viabilizem vida e não a morte da vida. É necessário buscar por pedagogias referenciais importantes que façam com que as interações ocorram em todos os níveis que constituem a vida em sociedade, promovendo mudanças de atitudes e a recuperação da terra.

Fonte: Maria Marlene Rodrigues de Souza - Com adaptações

Um comentário:

Raissa Izola Duarte disse...

Os pais conduzem as crianças mais do que ninguém, tomara que com essas novas proposições os pais também se tornem pedagogos.

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