30.6.09

Reflexões sobre o agrário na atualidade.

Após Revolução Industrial e com a intensificação da busca da produção da mais-valia e acumulação de capital as relações de trabalho e produção sofreram mudanças significativas, com a introdução de novas tecnologias, o que é constante em nossos dias e com o desenvolvimento de uma sociedade de classes onde os burgueses (detentores dos meios de produção) e o proletariado (trabalhadores) tem vivido uma relação em que os trabalhadores tem uma relação diferenciada com a terra, onde os proprietários pagam pela força de trabalho, compram como mercadorias aqueles que trabalham na produção e através da espoliação retiram a mais valia, onde a produção paga o salário dos empregados, subsidia a seqüência da produção e os investimentos para futuros ganhos e retira-se o lucro, o trabalhador trabalha em parte do processo de produção devido à divisão do trabalho e não é o proprietário das terras em que trabalha, essa é a relação que comumente verificamos no contexto rural dos grandes latifúndios de hoje.

Desta forma a linda relação existente entre o homem-terra e homem-homem em que plantava-se aquilo que serviria para própria a subsistência, a terra servindo como fonte de vida sem a intervenção capitalista e os homens vivendo em plena harmonia, num bonito sistema comunista em que as desigualdades eram mínimas e que todos tinham na própria terra e não no supermercado o seu sustento, plantavam e colhiam e não compravam, assim não corriam o risco de não ter o que comer, salvo em caso de alguns problemas de ordem natural, assim, o há um distanciamento do homem com a terra, o afeto pela terra vem perdendo o sentido ao longo da história fazendo dessa relação harmônica uma relação perversa que massacra a grande maioria baseada no capital, onde este é o grande Deus do nosso século, criando um clima de concorrência e de ganância e uma crise de identidade muito grande onde o Ter é muito mais importante do que o Ser e muitas vezes temos que escolher entre o ruim e o péssimo ou entre o mais ou menos e o ruim para continuarmos a grande luta pela sobrevivência, muitas vezes nos privando de momentos de diversão ou de confraternização familiar, trabalhando muitas horas por dia, sendo espoliados e vivendo como mercadorias ou máquinas.

No caso específico do campo, com o rápido desenvolvimento das indústrias e conseqüentemente o crescimento da urbanização, com a mecanização do campo muitos tem abandonado as áreas rurais a fim de buscar algo novo nas cidades, na área urbana, já que o capital exige que a produção seja rápida e com baixos custos, isto a máquina faz muito melhor do que o homem e a máquina atende muito melhor os interesses capitalistas sem sombra de dúvidas, assim, seja porque perderam o emprego para esse grande concorrente (a máquina), seja porque perderam o mercado para os grandes latifúndios (caso dos pequenos produtores), e se viram obrigados à vender as suas propriedades e buscar algo melhor que muitas vezes se torna pior, o homem se torna um mero operador de máquinas e as periferias das cidades estão cada dia mais povoadas por muitos vindos das áreas rurais causando muitas vezes um caos urbano.

Sem sombra de dúvidas o rural tem passado por inúmeras transformações nos últimos tempos, o que vem trazer uma preocupação para aqueles que estudam a sociedade e o espaço geográfico já que todo espaço é um espaço social, dessa forma é alvo de preocupação, estudos e experiências voltados para a sociedade pois se não for nada disso tem valor, destacarei adiante em poucas linhas alguns aspectos, conflitos e temas que são de importante discussão ao pensarmos o novo rural e buscarmos alternativas que vem beneficiar a sociedade e incentivar pensamentos que tragam dias melhores para um povo, uma tentativa de fazer com que brilhe uma luz em meio à escuridão que muitas vezes tem cegado à muitos e apagado a expectativa de uma vida melhor para aqueles que sofrem.

Devido à aspectos históricos de propriedade, algo que vem desde o “descobrimento” do Brasil, que se arrastou pelo Brasil colônia, Império, República, existe uma grande massa de grupos excluídos, os chamados sem-sem que não tem terras, não tem emprego, não tem nada, enquanto existem porções de terra enormes nas mãos de poucos que de forma alguma dividem aquilo que tem, muitas dessas terras pertencem ao governo, muitas são improdutivas mas o Ter e manter o status muitas vezes fala mais alto do que o repartir em um ato de solidariedade, nesse contexto se organizaram vários movimentos sociais a fim de buscar aquilo que lhes é de direito constitucionalmente falando, todos tem direito à moradia e todos os imóveis devem ter uma função social, diante disso acontecem inúmeros conflitos, muitos deles sangrentos oriundos dessa luta nessa sociedade de classes em que 6% da população detém 60% dos recursos, enfim, a má distribuição de renda é a fonte de inúmeros males e os conflitos são inevitáveis, os movimentos sociais vem buscar os seus direitos, querem uma parte daquilo que teoricamente é para todos, salvo algumas exceções, pessoas que se aproveitam dessa situação, o que acontece em todos os lugares, a efetiva reforma agrária é sonhada por todos e tem sido algo muito discutido nos últimos tempos, tem havido no governo atual inúmeros assentamentos porém ainda é muito pouco diante da quantidade de pessoas excluídas existentes, acredito que a reforma só vai surtir efeito à partir do momento que deixar de ser reforma, deixar de querer reformar o velho e se transformar em uma revolução, sim, uma revolução pois é urgente que se pense na sociedade de forma geral, é hora de evitar o derramamento de sangue e de alimentarmos aqueles que tem fome e que morrem sem condições, chega de assistirmos futebol enquanto muitos morrem de fome tendo o que comer, se alimentando de forma inadequada, muitas vezes de farinha ou de caranguejo, muitas vezes não tendo nem isto,comendo o resto dos porcos nos lixões em condições sub-humanas numa existência podre nesse mundo perverso.

Nesses tempos a biotecnologia e a transgenia tem sido uma fascinação mundial, os grandes grupos econômicos fazem crescer a produção de forma que atenda às “necessidades” de uma sociedade consumista, criada especialmente devido à influência dos meios de comunicação a fim de que sejam os consumidores dos produtos fabricados, o que importa é o lucro, a saúde é uma bobagem.... por isso não importa que esse tipo de produto mate a muitos, não importa, a vida perde o valor, o importante é degustar um delicioso veneno e morrer aos poucos, isso é importante, o estímulo ao consumo, muitas vezes cientes dos riscos do consumo dos produtos transformados geneticamente, muitas vezes nem sabendo os riscos, mas estimulando o consumo apenas para manter a produção de mais valia, o agrobusiness é o que vem movimentar o mundo dos negócios no meio rural pelos grandes proprietários, onde muitas vezes a produção destina-se ao mercado externo e não para o nosso próprio abastecimento como o caso da soja que não é um produto típico brasileiro salvo o óleo de soja.

Diante desse domínio capitalista e por estar sendo engolido pelo sistema o pequeno produtor tem buscado alternativas para continuar vivo num ambiente em que é pregada a morte e a concorrência, assim sendo, este tem buscado investir em outros mercados atendendo muitas vezes o mercado regional, as feiras ao redor, os pequenos estabelecimentos comerciais, etc... não entrando na área de abrangência dos grandes latifundiários, muitas vezes se vêem obrigados à partir para outro tipo de produção, outros produtos que não estejam englobados naqueles que são produzidos pelo grande produtor, muitas vezes investe na qualidade de vida ao nos alimentarmos em produtos sem agrotóxicos, não industrializados aos quais tem havido uma preocupação nos últimos tempos com a qualidade do que consumimos, isso é um nicho de mercado nos dias atuais, muitos pequenos produtores se reúnem em cooperativas a fim de se fortalecerem e de continuar competitivos no mercado em uma ajuda mútua que traz consigo vários benefícios.

Outra coisa a ser destacada é o conceito de sustentabilidade que não é algo buscado pelos grandes produtores, onde esse próprio conceito é tido como forma de sustentar a riqueza hegemônica daqueles que muito tem, o conceito de sustentabilidade que deveria abranger toda a população rural, onde todos teriam condições de sobreviver de forma digna, de igual forma a preservação da natureza a fim de que as gerações futuras sejam beneficiadas é algo totalmente utópico onde vemos o desmatamento constante de florestas a fim plantar soja e outros produtos que visam atender a demanda internacional, dessa forma o nosso futuro está cada vez mais ameaçado pela tecnologia utilizada sem os devidos cuidados, muitos tem morrido de câncer devido ao uso de produtos químicos, a introdução de hormônios em animais tem formado uma população doente, obesa e com vários distúrbios hormonais, desenvolvimento precoce de crianças, etc...

Novas culturas são introduzidas no campo, na era da globalização os meios globalizantes tem alcançado a passos largos o meio rural, a internet está em várias residências, TV, e outros hábitos ora urbanos tem tomado conta do morador rural, sendo assim, a visão que ora tínhamos de um rural atrasado com artigos arcaicos, pessoas alienadas do mundo em que vivemos é jogado por terra e dando lugar a um novo rural integrante da globalização perversa, estimulando o consumo, a concorrência e massacre, etc... outros tipos de atividades tem sido desenvolvidas no meio rural, falo das ORNAS (Ocupações Rurais Não Agrícolas) onde pessoas querem incorporar o rural em sua qualidade de vida, muitos buscam residir em áreas rurais buscando um conforto e melhores condições de vida, grande parte desses moradores são aposentados que buscam desfrutar do restante de vida no sossego de uma roça, muitos adquirem propriedades a fim de reunir a família nos fins de semana para momentos de lazer e nesse contexto os trabalhadores que ora estavam envolvidos em atividades agrícolas começam a prestar outros tipos de serviços como de pedreiro, caseiro, pintor, eletricista, empregado doméstico, etc... é o que lhes resta... quando resta já que muitos não sabem fazer outra coisa á não ser trabalhar no campo e se vêem diante de todas as dificuldades que já foram explicitadas acima.

O investimento na agricultura familiar é na visão de alguns especialistas uma forma de tentar retornar ao modelo harmônico que eu citei no início e uma alternativa para todos os excluídos, porém, como todos sabemos, são os grupos econômicos que ditam a política de um país, dessa forma os investimentos para essa atividade é relativamente baixo, principalmente em se tratando de Brasil, existem países que desenvolveram esta atividade e proporcionaram uma volta harmônica de pessoas ao campo a fim de viverem aquilo que faz parte de sua essência.

O turismo rural também é uma atividade bem explorada nos dias atuais tendo um grande potencial econômico e trazendo renda para as localidades que são visitadas, porém os gastos para se manter uma cidade esteticamente bonita e que não vai causar uma repulsão é bastante alto e em muitos lugares os recursos são para outros fins e não investidos nas cidades, o que torna muito difícil esta tarefa, já que muitas vezes interesses das elites políticas estão acima dos interesses da sociedade.

Desta forma, acredito que se houver um estímulo ao estudo de casos, se houver uma atenção maior de nossas autoridades que tem o poder de fazer mudanças, se todas as questões levantadas acima forem levadas a sério poderemos com certeza trazer melhorias e buscar atender todos aqueles que necessitam de atenção especial e urgente em nossos dias antes que seja tarde, precisamos escolher representantes que deixem de atender as suas ideologias particulares e pensem no bem comum, afinal os escolhemos para nos representar e não para representar a si próprios, devemos cobrar mais, reivindicar direitos e deixar de concordar e aceitar as migalhas sociais que nos oferecem todos os dias.

É hora de mudança, Já!

Texto escrito em 2007

Luciano Costa

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