19.5.09

Fragmentos: A máquina ideológica e a realidade mundial.

A máquina ideológica funciona e supostamente reduz distâncias, mas será que a realidade é mesmo esta? O mundo realmente está ao alcance das mãos de todos? Na verdade segundo Santos (2000), estima-se que a globalização favorece apenas 1/3 da população mundial enquanto 2/3 ficam de fora. Como podemos perceber não é a maioria que tem acesso a informática, não são todos que podem viajar o mundo e conhecer outros continentes, com relação a renda é uma minoria que desfruta de todas as regalias oriundas do capital mundial.

“Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.” (SANTOS, 2000).

O Estado é impelido a atender os reclamos das finanças e estimular o crescimento de grandes grupos hegemônicos internacionais, investindo no espaço a fim de facilitar os fluxos e cria incentivos a fim de facilitar a instalação de grandes empresas, uma ação destinada não a todas, mas a uma parcela de empresas que são as detentoras do grande capital mundial e que com o passar dos anos destroem as empresas menores em uma concorrência desleal e assumem o controle do mercado mundial regional.

Enquanto isso, o cuidado com as populações locais é cada vez menor, os investimentos em infra-estrutura, moradia, alimentação, saúde e educação são menores. O conceito de Território é esquecido, o sentimento patriota é minimizado, as grandes empresas se instalam nos países que vão trazer um lucro maior com um custo de produção mais baixo, esses pontos são explorados e retiram todo o potencial de lucro e podendo ser abandonadas a qualquer tempo, não havendo um vínculo, uma responsabilidade social, algo sustentável para determinado espaço, o que há é apenas uma usurpação dos recursos ali presentes em troca de alguns empregos, portanto, essa globalização exclui a maior parte dos territórios, empresas, instituições e pessoas.

Os discursos globalizadores, segundo Santos (2000), trazem consigo muitas falsas verdades, admite-se que o crescimento máximo, logo a produtividade e a competitividade é o fim único e último das ações humanas, há uma preocupação radical em âmbito econômico, enquanto o social fica para último plano, o que nunca funciona, alguns governos proferem discursos nos quais dizem investir primeiramente na parte econômica do país e somente assim o social será atingido, uma grande balela, pois o Estado sendo um organismo, todas estas coisas devem caminhar juntas.

Existem algumas fantasias grotescas que somos obrigados a engolir, algumas expressões que causam náuseas se verificarmos a carga ideológica que está por trás do que é aparente, não se diz mais patronato, se diz “as forças vivas da nação”, não há mais demissões e sim “cortam-se gorduras”, quando certa empresa demite vários trabalhadores ela tem “um plano social corajoso”, algumas palavras como flexibilidade, maleabilidade e desregulamentação, nos fazem crer que a mensagem neoliberalista é uma mensagem mundial de libertação, algo universal, mostrando o suposto triunfo do neoliberalismo em relação a sua política que prega o “Estado mínimo”, somente um olhar crítico do espaço que vem enxergar os dois lados da moeda pode desvendar o que está por trás de cada discurso globalizador.

Para a maior parte da humanidade o desemprego tornou-se algo crônico, a pobreza, a fome e o desabrigo se generalizam pelo mundo, não precisamos ir muito longe, basta andarmos pelas ruas para constatarmos essas coisas, são várias pessoas alojadas debaixo de pontes e viadutos, outras dormindo pelas ruas sem proteção no frio nas madrugadas, basta entrarmos na internet para vermos a situação precária dos países africanos esquecidos pelo resto do mundo, enfim, basta muitos de nós olharmos para a nossa vida e percebermos as muitas carências materiais que temos e que não podem ser supridas por falta de capital, o oxigênio do sistema-mundo atual, apesar da mídia dizer e determinar que precisamos.

Em um certo momento caímos na real e percebemos que o mundo imaginário das tele-novelas e propagandas da máquina ideológica que trabalha à favor do capital não condiz com a nossa realidade, a partir daí, assim como o operário em construção, começamos a pensar que contribuímos para que tudo existe na sua forma atual, porém, não possuímos esse tudo, somos incapazes, porém operários dessa nova ordem.


Fonte: Fragmento de minha monografia TCC da graduação "Contrubuições do Existencialismo no Estudo do Espaço Geográfico: Um Enfoque em Sartre, 2007.

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