5.11.11

Fragmentos: Espaço e Trabalho - a criação do mundo subdesenvolvido

A sociedade é o objeto de estudo da geografia a partir do momento em que o estudo do espaço é também o estudo da sociedade pois cada espaço é uma sociedade com traços próprios de uma certa paisagem (o que os nossos olhos podem ver).

As relações de trabalho na sociedade capitalista também é algo que foi profundamente transformado, muitos pensam que a atual forma de relação homem-meio é algo que sempre existiu, porém fica implícito que sob o capitalismo o trabalho subordina-se ao capital, assim, a relação homem-meio se tornou uma relação de constante produção e de comércio, impregnando um pensamento em que o homem e a natureza só existam para o capital e sua acumulação, tem-se a noção de que desenvolvimento é a acumulação de capital e de que trabalho é a produção de mais-valia, essas são as causas da perda do afeto pelo espaço.

Desta forma, a noção que temos hoje sobre os conceitos de desenvolvimento e subdesenvolvimento são extremamente conceitos criados à partir da dominação das nações pelos países colonialistas a fim de expandirem as sua áreas de influência o que se acentua a partir do século XIX onde as “grandes potências” da época, principalmente a Inglaterra e outros países europeus partem em busca de “descobrir” novas terras no planeta e é o que realmente fazem, levando até os povos da Ásia, África e América momentos de morte e terror, solidificando a fragmentação espacial. Essa relação, em primeiro lugar, assume a forma de um choque entre dois mundos, entre dois sistemas sociais, entre duas histórias e momentos diferentes de organização da vida social.

Como podemos perceber, a expansão marítima expande também a cultura européia pelo mundo, uma cultura dominadora, com suas técnicas próprias e uma crescente busca de expansão a fim de buscar matérias-primas, mercados para seus produtos, mão-de-obra escrava, etc...

A noção de subdesenvolvimento na verdade é algo criado a partir do momento em que as nações dominantes se sobrepõe às nações dominadas, matando muitas vezes a cultura de um povo e criando novos sistemas de consumo, novas necessidades e novos sistemas que determinam uma nação com traços de “desenvolvimento”, aqueles que viviam extremamente bem segundo a sua cultura passam à se tornar dependentes das parafernálias européias, próprias de um sistema chamado “desenvolvido” e “socializado”. Um Imperador da China escreve ao rei da Inglaterra, George III: “Como seu embaixador pode ver por si próprio, possuímos todas as coisas. Não atribuo qualquer valor à objetos estranhos ou engenhosos, e não tenho uso para as manufaturas de seu país.” (GONZÁLEZ, 1980)

A partir de então, século XVIII, como podemos perceber nos dias atuais, os “objetos estranhos e engenhosos”, as manufaturas das revoluções industriais capitalistas expandiram-se pelo mundo, não sem adquirir um aspecto inconfundivelmente bélico, de arsenal ameaçante e altivo, assim, surge a “economia do subdesenvolvimento”

Hoje colhemos os frutos de uma história de terror frente a busca dos colonizadores por conhecer e dominar o mundo, América Latina e África são exemplos claros da herança amarga de um passado sangrento.

O Brasil localizado na América Latina, ex colônia de exploração e com industrialização tardia devido à isso está nesse rol de “subdesenvolvimento”, é bom ressaltar que hoje ainda sofremos com o controle do capital internacional através das multinacionais, assim, continuamos sem a tão sonhada soberania que provavelmente geraria um país mais justo. No caso da África, muitos povos continuam amargando constantes conflitos devido a uma divisão territorial efetuada pelos colonizadores não respeitando a cultura dos povos que ali residiam o que faz com que muitos vivam em conflito devido à divisão territorial em países realizada sem o respeito a esses parâmetros, na verdade o que importa mesmo é o lucro, é a reprodução do capital numa artificialidade e não-amor constante.

Os países tidos como colônias de povoamento como os Estados Unidos da América, Canadá e Austrália colhem hoje os “benefícios” de tal escolha, isso em termos bélicos e econômicos para o primeiro, o que muitos classificam como fator de desenvolvimento, desta forma, percebemos claramente as conseqüências da ação colonizadora, frutos amargos em nossos dias.

De acordo com a realidade atual percebemos claramente dois pólos bem definidos à nível mundial, “um só mundo produzindo e consumindo de forma capitalista, não forçosamente conduzido à outra realidade do “atraso”, do “não crescimento”, da “pobreza” ou do “subdesenvolvimento” em certas regiões gerando condições para gerar “avanços”, “crescimento”, “riqueza” ou “desenvolvimento” em outras partes do mesmo modo de produção capitalista.

O subdesenvolvimento é o que muitos países recebem do capitalismo assim como o capitalismo recebe do subdesenvolvimento o seu oxigênio, seu fôlego, sua própria circulação sanguínea.

Uma maneira de manter o homem sob esse regime excludente e explorador é torna-lo dependente do capital para sobreviver, para que o homem não perceba essa relação é necessário camufla-la, e realmente é o que acontece, a maioria das pessoas existem e não dão a mínima importância para os fatores que os rodeiam e que determinam a sua vida cotidiana, se entregando e vivendo em paradigmas existentes, porém algo totalmente comum para uma visão que se limita apenas ao real-aparente.

Na relação de trabalho nos dias atuais, uma parte dos homens possuem a força de trabalho, o proletariado e outra muito menor possui as condições materiais do trabalho, a burguesia, isso determina uma relação de trabalho entre os desiguais, algo concreto, porém a relação de poder existente é percebida por poucos, isso é uma relação necessária para que exista o capitalismo, é necessário que existam os pobres e os miseráveis a fim de que existam os milionários, isso é algo produzido cientificamente por aqueles que almejam o poder a qualquer custo, estimulados por um amor tremendo pelo capital e um desamor enorme pelos homens.

“O capital traz como sua condição necessária a subversão da geografia pré-capitalista, porque o capitalismo nasce e se expande subvertendo a “relação homem-meio”, que não é outra coisa que o processo de trabalho dito de forma empírica.” (MOREIRA, 1985).

Desde o aparecimento do homem na face da Terra, as histórias do homem e da natureza se fundem em um só plano pois estão intimamente ligados e em cada modo de produção e momento histórico ganhará os seus contornos, conforme vemos no capitalismo. Nas “sociedades naturais” homem e natureza formam uma unidade orgânica, uma identidade, um afeto, porém nas “sociedades históricas” o homem e a natureza são entes distintos e separados organicamente.

As “sociedades naturais” são assim chamadas porque tem a terra como meio universal de trabalho, há uma unicidade orgânica entre o homem e a natureza, o ritmo de trabalho e a vida dos homens repete o ritmo da natureza, assim, o espaço geográfico é o próprio espaço natural, nas sociedades capitalistas esse vínculo é rompido como já vimos anteriormente, o capital apropria-se da natureza e proletariza os homens e se apropria da natureza, assim separa os homens da natureza e comanda a produção/reprodução na existência, o ritmo do trabalho e dos homens são o ritmo do capital pois o capital nutre-se da exploração do trabalho. Como a visão predominante é a de lucro, acaba por se tornar uma relação de predação, onde a busca por baixo custo de produção e em maior escala tem destruído e degradado a natureza que realiza o trabalho capitalizado, isso se intensifica com a divisão internacional do trabalho.

“O fato de que os homens necessitam comer, vestir, proteger-se e incorporar graus crescentes de conforto à sua existência impele-os ao trabalho.”(MOREIRA, 1985).

Desta forma há um consenso popular de que o progresso e o crescimento humano está intimamente ligado a essa forma predatória de produção/reprodução do espaço e que nisso se sustenta o processo de evolução e revolução humana, porém é uma revolução contrária que não vem para o bem comum da humanidade.

Fonte: Fragmento de minha monografia TCC da graduação "Contrubuições do Existencialismo no Estudo do Espaço Geográfico: Um Enfoque em Sartre, 2007.

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