1.4.09

Grandezas e gentilezas

A partir de 1940, o perfil da população brasileira, em relação aos moradores do campo e da cidade mudou consideravelmente.

Em 1940 o Brasil apresentava 69% de população rural, o que foi diminuindo ao longo dos anos, até ser ultrapassada pela população urbana em 1970, onde esta apresentava 56% da população brasileira.

Segundo o censo demográfico de 2000, o Brasil apresentava na oportunidade cerca de 81% de população urbana.

Tal mudança no perfil demográfico brasileiro se deu devido a industrialização do país, que se acentuou a partir da década de 50 com a abertura do país para o capital internacional que hoje explora economicamente o nosso país e tem plena liberdade de enviar os lucros para o exterior sem nenhuma contrapartida social para a população local.

Nas últimas décadas perdemos ainda mais a nossa soberania com as intensas privatizações realizadas pelos governos neoliberais.

Os mais de 40 anos de guerra fria e a constante pressão e influência norte-americana sobre o Brasil deixaram tristes marcas em nossa história como as quase três décadas de ditadura militar e as marcas do crescimento acelerado e dependente do país como a pobreza e a exclusão social, enquanto os lucros são enviados para o exterior.

A urbanização desenfreada e sem planejamento foi uma forma de criar condições para a instalação das indústrias multinacionais, inclusive a automobilística que hoje gera um ônus enorme em manutenção de rodovias para o governo, o transporte ferroviário que é muito mais barato foi descartado, senão tal segmento não teria mercado consumidor.

E assim foi com diversos outros segmentos industriais, de serviços e até mesmo do setor primário, onde muitas terras agricultáveis são hoje verdadeiras plataformas de exportação, enquanto muitos brasileiros vivem sem terra, sem teto ou sem nada.

Com a rápida mudança na estrutura econômica brasileira, a população também foi obrigada a mudar rapidamente, visto que, o campo mecanizado já não absorvia toda a mão-de-obra, assim, foram crescendo as cidades, com destaque para as grandes e médias que eram alvos da indústria aliados a outros fatores, assim, foram se formando os grandes ecúmenos.

O resultado disso foi o crescimento desordenado das cidades, formação de favelas, grande concentração de renda nas mãos de poucos, problemas de saúde por falta de saneamento, trânsitos caóticos, mudanças drásticas no clima global, desemprego, déficit de moradias, etc... Tudo isso aliado a falta de cuidado dos governos com a populção e sucateamento dos serviços sociais públicos em detrimento do privado e interesses empresariais.

Hoje tem acontecido o caminho inverso, várias indústrias tem migrado para áreas menos densas do país onde o escoamento da produção é mais fácil, os impostos e valor dos imóveis são mais baratos e onde recebem uma série de incentivos, normalmente localizam-se no entorno das grandes e médias cidades, desta forma, o espaço continua em mutação e as regiões metropolitanas vem se multiplicando.

A população também busca este caminho, porém, isto não está ao alcance de todos já que o trabalho nestas pequenas cidades ainda não absorve toda a mão-de-obra. Normalmente que faz este "caminho de volta" são aposentados, funcionários públicos e semelhantes, pessoas que não estão interessadas em produzir, mas em desfrutar da qualidade de vida no campo fugindo da violência, da poluição, do trânsito caótico e outras coisas próprias das grandes cidades e outros possuem apenas suas casas de campo, onde vão nas férias e fins de semana.

Outro aspecto importante desta mudança drástica e crescimento desordenado é a mudança dos costumes, estilo de vida e personalidade das populações.

Ora, como trabalho em uma pequena cidade e moro em outra de porte médio percebo claramente as diferenças existentes nas duas localidades.

Na cidade grande já não se senta na praça e bate um papo com o desconhecido visto que tudo é suspeito, ja na cidade pequena as pessoas ainda são mais amigáveis e menos isoladas em seus cubículos (apartamentos) onde nem mesmo o vizinho de frente é conhecido.

Na cidade pequena a vida é menos corrida e ainda se pode tomar um sorvete sentado tranquilamente sob o sol escaldante. O ar é puro e os automóveis ainda param para os pedestres atravessarem as vias.

Este mundo de gentilezas infelizmente é desconhecido nas grandes cidades, onde o stress e a intolerância reinam em uma verdadeira "guerra urbana" e dez minutos perdidos muitas vezes são a causa de um infarto fulminante.

Estamos correndo para quê e para onde se para o caixão nada disso levamos?

Como um cidadão tipicamente criado na cultura urbana tenho aprendido muito nesta estadia em uma cuidade menor, até a parar minha moto para pessoas atravessarem, um simples gesto de gentileza que é ignorado por muitos e uma surpresa para mim que ainda vivo na guerra do transito na grande cidade.

Que bom seria se os valores da população mudassem e a verdadeira grandeza que não são os prédios e os grandes shopping's, mas a gentileza e uma convivência amigável e saudável entre as pessoas e com o espaço que é a própria sociedade.

É uma pena que tudo isso tende a mudar para pior com o espaço a cada dia mais urbanizado, porém, a esperança é de que esta inversão de valores próprios do meio urbano e capitalista possam se transformar em gentileza.

A verdadeira grandeza é servir ao semelhante!

A verdadeira grandeza é saber cuidar do mundo que é a nossa casa pensando em nossa qualidade de vida e de nossos descendentes!

Pena que isto ainda é uma grande utopia diante do mundo de fábulas e da inversão de valores de nossa sociedade.

Luciano Costa

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